5. ECONOMIA 18.9.13

O PROBLEMA  O PREO
Ao vender gasolina subsidiada, o governo quebrou a indstria do etanol, o combustvel limpo e 100% nacional.
ANA LUIZA DALTRO

     H cinco anos, nenhum empresrio se arrisca a investir dinheiro para construir uma usina de etanol no Brasil. A venda do lcool nas bombas vem caindo, e 41 unidades de produo deixaram de funcionar desde 2008. A crise do combustvel verde j levou  demisso de 45.000 trabalhadores. A quebradeira nas usinas faria supor que a Petrobras estaria acumulando lucros crescentes, vendendo mais gasolina e diesel. Nada mais errado. Forada pelo governo a postergar reajustes, a estatal tem amargado prejuzo mensal de 1 bilho de reais com a comercializao dos combustveis. Desde 2011, a perda alcana 38 bilhes de reais, um montante equivalente a um tero dos 120 bilhes de reais obtidos com a venda de aes em 2010. Quanto mais a Petrobras vende, mais ela perde dinheiro. Incapaz de atender ao aumento do consumo, a empresa, aquela mesma que h poucos anos festejava a autossuficincia, precisa importar volumes crescentes de combustveis e os distribui no mercado interno a um preo subsidiado. 
     O Brasil sonhou se tornar a Arbia Saudita da energia verde ao ser o primeiro pas a utilizar em larga escala um combustvel renovvel. Depois, com a descoberta das reservas do pr-sal, imaginou ser um grande exportador de petrleo. A poltica de preos dos combustveis, entretanto, obteve o mrito duplo (e duvidoso) de ter arruinado as perspectivas de investimentos no etanol ao mesmo tempo em que retardou a explorao do petrleo. Espera-se que o governo autorize, nos prximos dias, uma alta em torno de 5% para a gasolina e o diesel. A defasagem, contudo, est hoje em 30%. Tamanha alta teria impacto de 1 ponto percentual na inflao, que subiria para alm do teto da meta de 6,5% ao ano. O governo, em vez de controlar a inflao com medidas duras mas perenes, como o aumento mais rpido na taxa de juros e um corte profundo nas despesas pblicas, optou pelo atalho canhestro da manipulao de preos. Resultado: quebradeira em srie de usinas e queima de recursos que a Petrobras deveria usar na explorao do pr-sal. 
     "No precisamos de subsdios. Tudo o que o setor do etanol pede  uma poltica racional de formao de preos para a gasolina, compatvel com o mercado e com a real demanda", afirma Elizabeth Farina, presidente da Unio da Indstria de Cana-de-Acar (Unica). Estimativas do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) mostram que o potencial de consumo de etanol seria da ordem de 34 bilhes de litros. O volume  o triplo do que dever ser vendido em 2013. Ao mesmo tempo, a importao de gasolina nos sete primeiros meses do ano foi de 2,5 bilhes de litros, um aumento de 400% em relao a 2010. Segundo Adriano Pires, diretor do CBIE e um dos maiores especialistas do pas no setor de energia, desatar os ns da indstria do etanol e do petrleo exigiria elevao de pelo menos 20% no preo da gasolina e do diesel, um ndice considerado invivel politicamente. "Polticas de congelamento so sempre fceis de adotar, porque dependem somente da vontade do governo", afirma Pires. "O difcil  desembarcar de uma poltica populista como essa." 
     O Brasil, assim, fica exposto a uma fragilidade que j parecia ter superado. Nos anos 70, o pas viu seu milagre econmico ser abreviado pela crise do petrleo. Houve racionamento de combustveis, e os gastos com as importaes arrasaram com a balana comercial. Da crise nasceu o Prolcool, plano que contou com seus anos de glria. A maior parte dos carros feitos no pas rodava movida a etanol. Em meados dos anos 80, entretanto, a queda nas cotaes do petrleo derrubou o preo da gasolina, e ter carro a lcool se tornou um mico. A ressurreio do etanol veio com a tecnologia flex. Agora, mais uma vez, o combustvel verde tem seu futuro posto  deriva. Apenas grandes produtores, que tambm operam na distribuio, como a Cosan, esto conseguindo lucrar com  o etanol. "O prejuzo no  somente dos usineiros", diz Manoel Ortolan, presidente da Organizao de Plantadores de Cana da Regio Centro-Sul. "Perdem as empresas fornecedoras das usinas, os municpios onde elas esto instaladas, os trabalhadores e o meio ambiente." Para mitigar a crise, o governo concedeu benefcios tributrios, incentivos incapazes de dar nova vida aos investimentos. "Sem foco a longo prazo, o governo quebra empresas e a prpria continuidade da inovao tecnolgica", diz Adriano Pires. "A poltica de controle de preos conseguiu, em um curtssimo espao de tempo, destruir dois cones nacionais: a Petrobras e o etanol." 

A DEFASAGEM NO PREO DA GASOLINA...
Preo do litro, em reais, nas refinarias
Estados Unidos  setembro de 2007 1,00; setembro de 2013 1,76
Brasil  Setembro de 2007 1,00; setembro de 2013 1,35

...FAZ A PETROBRAS ACUMULAR PREJUZOS...
Perdas com a defasagem no preo dos combustveis, desde 2011  38 bilhes de reais

...E AUMENTA A CRISE DO ETANOL
Nmero de usinas fechadas
2008: 2
2009: 3
2010: 6
2011: 16
At junho/12: 14

Fontes: Ita, ANP e Unica


